domingo, 18 de outubro de 2009




SE ...

Se...

Um dia, se voltares

talvez, a ti

só digam que parti

que já não sou

onde era o meu lugar

o meu estar

que, até, talvez de mim

distante eu esteja

como distante é agora

o tudo de eu amar

mas lá, tal como aqui

lá onde eu seja

a imensurada rota, a não estrada

semente em só silêncio fecundada

percurso em mim do tempo, o longe-perto

pássaro louco, solto na distância

de só saber de ti a dor a ânsia

mais frágil do que um sopro, o pó no vento

baterá meu coração, fiel e certo

poeira ou golpe de asa, em voo incerto

assim e só por ti, terno e violento

perdido coração e sem sossego

pássaro do longe, a ir, a vir

que incerto erra

grão ou semente, ou só poeira, em voo cego

a fecundar, nó de silêncio

a funda terra.


M.V.M.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

O dia amanheceu com uma leve neblina e o cheiro característico da maresia. A praia quase deserta e a perder de vista, deixava adivinhar que brevemente se iria transformar num areal ruidoso , onde as gaivotas deixariam de usufruir do sossego e da sua liberdade de saltitarem na espuma das ondas. Enquanto permaneci sentada e imóvel, observando aquela dança fantástica de um vai e vem em plena sintonia, ora voando nas alturas, ora rasando as águas azuis do oceano, observei o seu conversar. Mais parecia um coro de várias vozes como se tivessem sido convidadas a exibirem-se naquela manhã. Dei comigo a desejar a sua permanência perto de mim, e que na sua dança percebessem que eu estava ali para as admirar na sua liberdade e delicadeza... Mas não, tal como chegaram, assim partiram ruidosamente em direcção a norte, levando consigo uma beleza e uma frescura sem igual, e o meu pensamento, seguiu com elas. Foram instantes de enlevo, em que a fantasia se apoderou da alma que se deixou levar como se levitasse no espaço e assim conseguisse atravessar o oceano. Uma espécie de poesia interior ocupando os espaços vazios, espaços esses destinados apenas a albergar a beleza rara de certos sentimentos que são despertados pela visão. Recordei então outras praias, outras neblinas, outras gaivotas e outras gentes... É Verão, podia ser outra estação qualquer, que importa? Tudo se repete, ou quase tudo... Os pescadores que apressadamente entram nos seus pequenos barcos de pesca artesanal e que regressam no final do dia com algum peixe que é vendido de imediato na praia. As pessoas vão chegando, e nota-se em quase todas elas aquela azáfama de uma rotina que se repete ano após ano, de se bronzearem para ficarem com ar saudável, mesmo que o sacrifício seja maior que o benefício e o cansaço muitas vezes seja notório. Era Domingo,e o sol acabou por brilhar, um Domingo de Agosto, nem quente nem frio, ameno com uma leve aragem a beijar os corpos que se estendiam no areal, não fossem as notícias menos boas e tudo seria quase perfeito. Os Partidos mais fragmentados que há memória, a violência gratuíta e todo um sistema que funciona a meio gás ou nem sequer funciona, um futuro incerto, e um presente sinuoso com pouca ou nenhuma credibilidade, as fragilidades de um passado que não soube ou não quiz acautelar o futuro... São tantas coisas... Reflexões minhas num Domingo de Agosto, onde apesar de tudo encontrei a minha praia deserta,e onde a poesia e a simplicidade da natureza me deu alento e força anímica suficientes ,para encarar a realidade do dia a dia .


quinta-feira, 6 de agosto de 2009

A CARTA

Uma singela homenagem ao homem talentoso, ao arquitecto das palavras, ao grande escritor e poeta que nos brinda com a sua sensibilidade, tanto nos sentimentos, como no amor ao continente africano que tão bem ilustra na sua escrita.


A CARTA

A velha dobrou as pernas como se dobrasse os séculos. Ela sofria doença do chão, mais e de mais se deixando nos caídos. Amparava-se em poeiras, seria para se acostumar à cova, na subfície do mundo? - Me leia a carta. Me entregava o papel marrotado, dobrado em mil sujidades. Era a Carta de seu filho, Ezequiel. Ele se longeara, de farda, cabelo no zero. A carta, ele a enviara fazia anos muito coçados. Sempre era a mesma, já eu lhe conhecia de memória, vírgula a vírgula. - Outra vez, mamã Cacilda? - Sim, maistravez. Sentei o papel sob os olhos, fingi acarinhar o desenho das letras. Quase nem se viam, suadas que estavam. Dormiam sob o lenço de Cacilda, desde que chegara a guerra. Essas letras cheiram a pólvora, me rodilham o coração. Era o dito da velha. Agora, passados os tempos, aquele papel era a única prova do seu Ezequiel. Parecia que só pelo escrito, sempre mais desbotado, seu filho acedia à existencia. Nas primeiras vezes eu até me procedia à leitura, traduzindo a autêntica versão do pequeno soldado. Eram letras incertinhas, pareciam crianças saindo da formatura. Juntavam-se ali mais erros que palavras. O recheio nem era maior que o formato. Porque naquela escrita não havia nem linha de ternura. O soldado aprendera a guerra desaprendendo o amor? Em Ezequiel, morrera o filho para nascer o tropeiro? Nas primeiras leituras, meu coração muito se apertava em inventadas dedicatórias aquela mãe. Enquanto lia, eu espreitava o rosto da idosa senhora, tentando escutar uma ruga de tristeza. Nada. A velha se imovia, como se tivesse saudade da morte. Seus olhos não mencionavam nenhuma dor. Eu tentava um alivio, desculpar o menino que não sobrevivera à farda. Nem se entristenha, mamã Cacilda. Também, maneira como carregaram esse menino para a tropa! Sem camisa, sem mala, sem notícia. Atirado para os fundos do camião como se faz às encomendas sem endereço. - Entenda, mamã Cacilda. Mas ela já dormia, deitada em antiquíssima sombra. Ou mentia que Dormia, debruçada na varanda da alma? Fingia, a velha. Como o rio, num açude, se disfarça de lagoa. Depois, ela regressava às pálpebras, me apressava. - Continua. Por que paraste? Já não restava nada que ler. Era só o gorduroso gatafunho, despedida Sem nenhum beijo. Pode a carta de um saudoso filho terminar assim «unidade, trabalho, vigilância»? Mas a velha insistia, cismalhava. Eu que lesse, toda a gente sabe, as letras igualam as estrelas mesmo poucas são infinitas. Eu lhe fosse paciente, pobre mãe, sem nenhuma escola. Foi então que passei a alongar aquela tinta, amolecendo as reais palavras. Inventava. Em cada leitura, uma nova carta surgia da velha missiva. E o Ezequiel, em minha imagináutica, ganhava os infindos modos de ser filho, homem com méritos para permanecer menino. Cacilda escutava num embalo, houvessem em minha voz ondas de um sepultado mar. Ela embarcava de visita a seu filho, tudo se passando na bondade de uma mentira. Diz-se na própria doideira dos vamos loucurando. Até, um dia, me trouxeram notícia. Ezequiel perdera, para sempre, a existencia. Ele se desfechara em incógnitos matos, vitima dos bandos. A mãe nem suspeitava. Perguntei desconhecia-se o paradeiro dela. Ficasse eu atribuido de lhe entregar o escuro anúncio. Esperei. Nesse fim de tardinha, porém, mamã Cacilda não compareceu em minha casa. Assustei adivinhara ela o destino do Ezequiel? Quem conhece os poderes de uma mãe em exercicio de saudade? Decidi ir ao seu lugar. Parti ainda restavam manchas do poente. Cacilda cozinhava uns míseros grãos, ementa de passarinho. - Senta, meu filho, fica servido, não custa dividir pobrezas. Fui ficando, me compondo de coragem. Como podia eu deflagrar aquele luto? Comemos. Melhor fingimos comer. Faz conta é uma refeição, meu filho. Faz conta. Modo que eu vivo, fazendo de conta. - E agora, diz porque vieste nesta minha casa? Olhei o chão, o mundo escapava pelo fundo. Ela venceu o silêncio. - Me vens ler o meu filho? Acenei que sim. Aceitei o velho papel mas demorei a começar. Eu queria acertar os meus tons, evitando o emergir de alguma tremura. Finalmente, atravessei a escrita, ao avesso da verdade. Trouxe as novas do filho, seus consecutivos heroísmos. Ele, o mais bravo, mais bondoso, mais único. Como sempre, a mãe escutou em qualificado silêncio. Às vezes, no colorir de um parágrafo, ela sorria sempre igual, esse meu filho. Eu me parabendizia, cumprida a missão do fingimento. Me despedi, quase em alívio. Foi então, em derradeiro relance, que eu vi a velha mãe lançava a carta sobre a fogueira. Ao meu virar, ela emendou o gesto. O papel demorou um instante a ser mastigado pelo fogo. Nesse brevíssimo segundo, eu anotei a lágrima pingando sobre a esteira. Ela fingiu tirar um fumo do rosto, fez conta que metia a carta sob o lenço. Me voltei a despedir, fazendo de conta que aquele adeus era igual aos todos que já lhe concedera.

Mia Couto

terça-feira, 28 de julho de 2009

TU LHES DIRÁS...

Tu lhes dirás,meu amor,que nós não existimos.
Que nascemos da noite,das árvores,das nuvens .

Que viemos,amámos,pecámos e partimos .
Como a água das chuvas.

Tu lhes dirás,meu amor,que ambos nos sorrimos
do que dizem e pensam . E que a nossa aventura,

é no vento que passa que a ouvimos,
é no nosso silêncio que perdura.

Tu lhes dirás,meu amor,que nós não falaremos
e que enterrámos vivo o fogo que nos queima.

Tu lhes dirás,meu amor,se for preciso,
que nos espreguiçaremos na fogueira.


Ary dos Santos

segunda-feira, 27 de julho de 2009

PARA ONDE NOS LEVAM'''''Para onde nos levam????


Muito se comenta, muito se reclama da passividade, da inércia e do estado de coisas negativas que são demasiadas para este sítio pequenino que se chama Portugal . E se o perfume dos cravos ao longo do tempo se foi evaporando, não há que culpar o vulgar cidadão, trabalhador honesto e sempre sacrificado, assim como aqueles que não têm força para reivindicações, nem lugar para o fazer.
Refiro-me ao cidadão anónimo que só pode mostrar o seu descontentamento através do voto.
Mas senhores... Se isso fosse suficiente, estaríamos todos felizes e porque razão não estamos? Porque na chamada gíria " é vira o disco e toca o mesmo", um trampolim para quem entra, outro para quem sai, e o resto continua igualzinho.
Tenho o direito à indignação e ao reparo, como cidadã que sou, pagadora de todos os meus impostos e mais alguns, tantos que me dão o direito de poder falar de rosto erguido e sem medos.
Nunca roubei, matei,difamei ou cometi outros delitos, posso dizer aquilo que eu acho, daquilo que não gosto.
E se para poder fazer seja o que for por este país, tenho que me filiar num qualquer partido... Esqueçam.
Isso nunca! Está fora de questão!
Já dei muito a este Portugal, dei o meu trabalho durante a minha vida útil de trabalhadora a tempo inteiro, de mãe, de educadora e em simultâneo de gestora do lar e dona de casa. Descontei uma vida inteira para pagar reformas e a saúde dos outros, e agora que também eu estou aposentada, continuo a pagar para o rendimento mínimo social e tudo aquilo que este governo resolveu instituir, como se fosse esse o castigo da minha contribuição ao país, assim como a dos milhares de pensionistas existentes neste sítio pequenino , cheio de clivagens, injustiças e cada vez mais despudorado!
Tenho direito à indignação, sim, a Constituição o determina, e numa democracia também existe a crítica e muitas mais coisas, mas quando falamos nelas levantam-se logo vozes, atacando como se as palavras ditas fossem uma heresia.
E por aqui me fico deixando para trás toda a a corrupção, uma justiça só para ricos,um serviço nacional de saúde que não existe, insegurança nunca vista, uma impunidade gritante, e a constatação de que a pobreza se vai instalando, engolindo cada vez mais uma classe média sofrida, cansada e triste.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

MEMÓRIAS

Começo assim... Era uma vez...
Um cachorro lindo, malhado de cor laranja e branco, olhos doces da cor de mel, impetuoso, mal educado,irreverente até ao desespero, mas doce,fiel,com um amor imenso estampado naquele focinho malandro.
Foi uma paixão ao primeiro latido, era o mais feioso de todos os que estavam na loja de animais em Perpignant.
Uma espreitadela minha, e aí saltou ele inteirinho para cima de mim, nessa altura tinha os olhos azuis, era desengonçado, com ar de quem tinha apanhado um choque eléctrico.
Mas as paixões são assim, quem feio ama , bonito lhe parece, mas não foi o caso, o INIKI de seu baptismo, tornou-se no cão mais lindo daquela raça,(Epagnol Bretton) foi como se uma flor desabrochasse e brilhasse como o sol.
Sem saber eu tinha comprado um cão de caça, timido, que tremia com a trovoada, foguetes e afins.Imaginem se ouvisse um tiro, decerto levantaria vôo.
Mas as aptidões, essas estavam lá inteirinhas, entregava tudo em mão sem reclamações e com o ar mais feliz do mundo.
Mas nunca foi um cachorro saudável, com um ano de idade foi-lhe diagnosticada a" Dirofilariose "ou a chamada doença do mosquito
.Após avultados gastos e muito carinho, conseguiu sobreviver, mas ficou com alergias a quase tudo, era raro o mês em que não ia visitar o " Tio ", esteve às portas da morte mais duas vezes.
Mas o amor faz milagres, e ele adorava os donos, que por sua vez o adoravam também, apesar das portas roídas, sapatos desfeitos, cortinados arrancados etc.etc.etc.
Sempre reivindicou tudo aquilo que achava ter direito. Casota? Ele? Nunca! Era desprestigiante, o sítio exigido era no quarto dos donos ou do meu filho,e não foram raras as vezes que o encontrei a dormir plácidamente na cama, para onde sorrateiramente saltava durante a noite.
Era assim o Iniki, saltador nato, nadador, mergulhador exímio, companheiro exigente e que não queria ficar só em casa, caso contrário partia tudo, roia, ladrava furiosamente, enfim, coisa pequena para um cão lindo e viajado.
Adorava andar de carro, nunca se recusava ,chegámos a fazer viagens longas para fora do país, e ele sempre ao nosso lado.
Um dia, começou a ter um andar estranho,tipo cavalinho de alta escola, todos engraçavam com essa forma de andar, até que começou a perder força nas patas dianteiras e a desiquilibrar-se.
Após muitos exames, entre eles uma TAC à cabeça,e sempre sem sucesso, percorreu várias clínicas, entre elas, uma vocacionada para problemas neurológicos mas sem conclusão nenhuma.
O estado dele foi-se agravando...
Pacientemente, deixava que lhe fizessem todos os tratamentos, e cada vez mais, o olhar dele me mostrava o seu amor, agradecimento e dedicação.
Até que um dia paralisou completamente, foi um desgosto enorme.
Ainda hoje tenho presente esse dia, em que o médico veterinário me disse que nada mais podia ser feito, e que para que não sofresse mais, eu devia aceitar a eutanásia.
E foi assim, que no meu colo ele adormeceu, sempre a olhar para mim com aqueles olhos doces de mel, e eu fazendo um esforço enorme para que não me visse chorar.
E partiu... Ainda hoje choro por ele.
É assim o amor! Não é necessário saber-se o que se ama, o necessário é ter amor dentro de nós, e o meu INIKI sabia disso.
Mais tarde encontrei na Net, um caso igual com um Dalmata de Barcelona, mas esse era mais novo e conseguiu salvar-se. Era uma Mielopatia.
Hoje tenho um sem abrigo que foi abandonado nas ruas da Parede, pequenino de tamanho , tipo " franjinhas" não tem o doçura do Iniki, é refilão mas gostamos um do outro.
Ah! também gosta de passear de carro.