quarta-feira, 29 de setembro de 2010

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

QUERO...









Quero o cinzeiro antigo

e a caixa de Pandora

e a cor de fumo do vestido que vesti

no dia em que fui contigo espreitar a hora...

Quero dar passos atrás, sorrindo de querer

coisas sem sentido

nos restos do tempo, nas sombras da hora...

Quero que os ramos sacudam na minha janela

toadas de tudo, toadas de nada

flor amarela da minha alvorada.

Quero pingos de amor migalhas de confetti e chuvas de côr

sem tempo contado... quero o despertar contigo a meu lado

quero chuva, quero vento, quero sol

trancada em fita de laço

tão longe do mundo - só no teu abraço!


Ana Daniel


segunda-feira, 14 de junho de 2010

QUIMERA


Por teu amor,
destruia a razão
e, com ela, todos os pensamentos,
e das doces imagens região;
alma soltava aos ventos,
por teu amor.

Por teu amor,
árvore era no cume
de rocha, verde folhagem vestia,
sofrendo raio, temporal em fúria,
e no Inverno morreria,
por teu amor.

Por teu amor,
pedra de rocha era,
ali no fundo em chama ardente,
numa dor insuportável deveras,
sofrendo mudamente,
por teu amor.

Por teu amor,
alma solta um dia
a Deus pediria que devolvesse,
ornando-me com virtude maior,
e, alegre, eu ta daria,
por teu amor.

V.M.

quinta-feira, 22 de abril de 2010


Por longo tempo de amor,
te dou esta lágrima.
Estrela da tarde, orvalho de flor,
uma lágrima.
De sonho? De Mágoa? Seja do que for,
uma lágrima.
Lágrima de olhos morenos
não tem rival:
os pingos são mais pequenos,
mas são de um fogo fatal.
Cecília Meireles

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O ROSTO QUE NÃO TEM ROSTO



Eu tinha uns olhos de neve

no tempo do vendaval;

sob os olhos, flores geladas;

por sobre o espelho tremente

finas bagas de cristal.


O tempo do vendaval

governa ainda os meus dias.

E um arrais de neves frias

põe cansaços de metal

nas doces melancolias.


Nas noites de lume fosco

sobre a água corredia,

um rosto que não tem rosto

e que se esfuma no dia

preside ao branco cenário

de uma única harmonia ...


Vendaval de mãos tão frias:

deslaça-me estes cabelos,

abre-me os braços sem elos,

faz de mim águas sombrias,

sem canto de rouxinóis

nem folhagem protectora,

nem melodias de aurora,

nem mansos beijos de sóis.


Inunda-me estes ouvidos

de raízes muito velhas;

põe longe as festas vermelhas

que eu tive nos meus sentidos,

e de uma vez para sempre

livra-me toda de mim.


Natércia Freire



quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

VOANDO AO ACASO


Hoje posso dizer que escalei os Himalaias, percorri todos os caminhos até à Patagónia, voei vertiginosamente sobre a Amazónia e desci suavemente no meio do Oceano Atlântico.
Quizera eu, flutuar no meio do mar imenso, subir até à brancura das núvens e olhar lá de cima, o azul de belos cambiantes..., mas sempre aquele azul...
Quizera eu, que neste espaço de tempo, todas as espécies migratórias que por mim passaram, se tivessem detido um segundo à minha volta, apenas o tempo necessário para que os olhos da alma pudessem guardar imagens inéditas, puras, lindas, e assim se lançassem dentro de mim apagando outras, selvagens, vulgares e predadoras.
Creio , que a Natureza, mãe da Terra, às vezes se engana, colocando declives , onde apenas deveriam existir belas planícies

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

ODE PAGÃ




Viver! - O corpo nu, a saltar, a correr
Numa praia deserta, ou rolando na areia,
Rolando, até ao mar... (que importa o que a alma
anseia?)
Isto sim, é viver!

O Paraíso é nosso e está na terra. Nós
É que temos o olhar velado de incerteza;
E julgamos ouvir a voz da Natureza
Ouvindo a nossa voz.

Ilusões! O triunfo, o amor, a poesia...
Não merecem, sequer, um dia à beira-mar
Vivido plenamente, - a sorver, a beijar
O vento e a maresia.

Viver é estar assim, a fronte ao céu erguida,
Os membros livres, as narinas dilatadas;
Com toda a Natureza, em espírito, as mãos dadas
- O resto não é vida.

Que venha, pois, a brisa e me trespasse a pele,
Para melhor poder compreendê-Ia e amá-Ia!
Que a voz do mar me chame e ouvindo a sua fala,
Eu vá e seja dele!

Que o Sol penetre bem na minha carne e a deixe
Queimada para sempre! As ondas, uma a uma,
Rebentem no meu corpo e eu fique, ébrio de espuma,
Contente como um peixe!

Carlos Queiroz


domingo, 3 de janeiro de 2010

DEI-TE OS MEUS OLHOS PARA VERES

Dei-te os meus olhos para veres
e continuei a ver,

dei-te a minha mão para guiar-te
e continuei a guiar,

segurei-te quando tropeçaste
e continuei a segurar,

levantei-te quando caíste
e continuei a levantar-te,

amei-te quando pediste
e continuei a amar.


A queixa?

Estive enquanto estiveste...

.. e continuo a estar !

Martin Guia« in as Pedras do Vau»