quinta-feira, 21 de junho de 2012

A TUA PELE DESCALÇA
Veio uma onda . A varrer o meu sono .
Caminhava nele como caminho na areia .
Nada me une ou divide. Nada me retém.
Sentas-te onde me sento no teu colo
e peço sempre a mesma história . A tua voz
cria as memórias que hei-de ter . Por agora
caminho ao longo das gaivotas e grito como elas
quando a maré baixa . Às vezes apoio-me num rochedo
para dizer “casa” e logo desmorono. Sigo descalça
como tu para dizer “seguimos”. Mas são apenas sons
sob o sol de maio. Murmúrios do que não serei.
Sempre tive problemas com o verbo ser. Faço
e desfaço as malas, entro e saio das gavetas.
Pausa na camisa que vestiste da última vez.
Uma vontade de a amarrotar, desapertar os botões
e sentir lá dentro a tua pele cá fora.
Tudo isto é tão verdade como podem ser os botões
de uma camisa escrita. Confesso que não pensei na cor,
ou se era às riscas. Agora acho que podia ser a de quadrados.
Em qualquer delas a tua pele entra na minha.
« Rosa Alice Branco»

sexta-feira, 4 de março de 2011

MAR.......


Mar........


Tu tens azul na cor e são pedaços
de luz em ti as asas das gaivotas
e são bandeiras soltas nos espaços
os trémulos voares das velas soltas


se me contares então perdidas rotas
em vão caminhos feitos sonhos lassos
se eu souber enfim porque derrotas
são feitos e desfeitos teus abraços


então - talvez então - eu saiba o jeito
das águas que me levam como um leito
no meu destino igual ao teu de mar


espelho de asa azul voo perfeito
ou barco espedaçado em mar desfeito
de esta maré - sal de não baixar


mª virgínia monteiro...

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

QUERO...









Quero o cinzeiro antigo

e a caixa de Pandora

e a cor de fumo do vestido que vesti

no dia em que fui contigo espreitar a hora...

Quero dar passos atrás, sorrindo de querer

coisas sem sentido

nos restos do tempo, nas sombras da hora...

Quero que os ramos sacudam na minha janela

toadas de tudo, toadas de nada

flor amarela da minha alvorada.

Quero pingos de amor migalhas de confetti e chuvas de côr

sem tempo contado... quero o despertar contigo a meu lado

quero chuva, quero vento, quero sol

trancada em fita de laço

tão longe do mundo - só no teu abraço!


Ana Daniel


segunda-feira, 14 de junho de 2010

QUIMERA


Por teu amor,
destruia a razão
e, com ela, todos os pensamentos,
e das doces imagens região;
alma soltava aos ventos,
por teu amor.

Por teu amor,
árvore era no cume
de rocha, verde folhagem vestia,
sofrendo raio, temporal em fúria,
e no Inverno morreria,
por teu amor.

Por teu amor,
pedra de rocha era,
ali no fundo em chama ardente,
numa dor insuportável deveras,
sofrendo mudamente,
por teu amor.

Por teu amor,
alma solta um dia
a Deus pediria que devolvesse,
ornando-me com virtude maior,
e, alegre, eu ta daria,
por teu amor.

V.M.

quinta-feira, 22 de abril de 2010


Por longo tempo de amor,
te dou esta lágrima.
Estrela da tarde, orvalho de flor,
uma lágrima.
De sonho? De Mágoa? Seja do que for,
uma lágrima.
Lágrima de olhos morenos
não tem rival:
os pingos são mais pequenos,
mas são de um fogo fatal.
Cecília Meireles