terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O ROSTO QUE NÃO TEM ROSTO



Eu tinha uns olhos de neve

no tempo do vendaval;

sob os olhos, flores geladas;

por sobre o espelho tremente

finas bagas de cristal.


O tempo do vendaval

governa ainda os meus dias.

E um arrais de neves frias

põe cansaços de metal

nas doces melancolias.


Nas noites de lume fosco

sobre a água corredia,

um rosto que não tem rosto

e que se esfuma no dia

preside ao branco cenário

de uma única harmonia ...


Vendaval de mãos tão frias:

deslaça-me estes cabelos,

abre-me os braços sem elos,

faz de mim águas sombrias,

sem canto de rouxinóis

nem folhagem protectora,

nem melodias de aurora,

nem mansos beijos de sóis.


Inunda-me estes ouvidos

de raízes muito velhas;

põe longe as festas vermelhas

que eu tive nos meus sentidos,

e de uma vez para sempre

livra-me toda de mim.


Natércia Freire



1 comentário:

  1. Ao navegar na net encontrei o seu "cantinho" e gostei muito. Irei seguir com prazer.
    Bom fim de semana
    bjs
    Maria

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